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Enfim, chegou o ano em que voltarei às coisas que realmente me interessam. Não que o que eu vinha fazendo fosse desinteressante ou contra a minha vontade, mas havia sempre algumas forças que me levavam por meandros que não eram totalmente do meu gosto. Acredito que você, leitor, tenha uma ideia do que estou falando. 

É difícil passar o contexto do qual as frases escritas saem. Temos toda a nossa vida, nossas experiências, nossos pensamentos e sentimentos, tudo isto no fundo. Como se a nossa vida fosse o caderno, as suas folhas, a capa, as cores. O que escrevemos são apenas letras, números, gráficos, rabiscos, manchas de tinta, coisas na superfície desse livro. 

A partir do último trimestre de 2025 planejei uma reestruturação completa da minha vida, para que em 2026 essa nova estrutura se tornasse realidade. Ao contrário de algo novo, o que está acontecendo é um retorno ao que realmente me interessa, aos meus gostos mais caros e antigos.

Estive estes dois últimos anos a refletir profundamente nessas questões. O que descobri é que sinto muita falta, a nível existencial mesmo, de uma grande parte do que eu fazia e era antes de 2016. Sempre tive muitos interesses e focos ao mesmo tempo: a música, a literatura, o misticismo, a fotografia, mas de 2016 para cá excluí todos esses interesses em prol de um único: a fotografia profissional. 

Foi uma virada drástica. De repente, de um mês para o outro (maio de 2016), parei a escrita do meu romance, do livro de contos e do livro de crônicas. Raramente toquei meu violão, guitarra elétrica, baixo, apesar de ainda tentar um novo projeto em 2020, que foi interrompido antes de se concretizar por causa da pandemia. No segundo ano da pandemia vendi tudo, inclusive os amplificadores, e mantive apenas a guitarra acústica. A espiritualidade ficou em segundo plano. Mas para que eu trabalhasse com fotografia, para que essa fosse a minha nova profissão, não havia outro jeito. 

Quando me decidi pela fotografia comercial, em 2016, eu estava há poucos anos a viver em Portugal e estava sem trabalho há bastante tempo, então parti do zero na profissão fotógrafo. Até a câmera e a minha primeira lente foram compradas em prestações. Foi preciso esse foco extremo num único ponto. 

Digo que «foi preciso» porque eu me conheço. Sou um geminiano que faz jus às descrições astrológicas, então tenho a forte tendência de me envolver em muitas coisas ao mesmo tempo, de saber algo relativamente profundo sobre cada uma dessas coisas, mas nunca chegar a ser «especialista» em uma delas. Sou difuso. Minha mente, ou melhor, meus processos mentais estão sempre acelerados. Nunca há processos aleatórios, são conexões velozes — é preciso dizer —, mas eu tenho o carma da criatividade. Essa febre.

Para tanto, ou seja, para me tornar um profissional em fotografia, tive que deixar muita coisa em pausa. 

Finalmente, chegou o momento de retomar o meu «eu» mais abrangente e ir diluindo a fotografia para que ela se torne apenas mais um item dentre tantos outros que estão sobre a minha mesa. É preciso retirá-la do centro da mesa e voltar a espalhar todos os itens por igual. Não adianta: eu sou todos esses fragmentos ao mesmo tempo e é quase uma auto-violação decidir apenas por um tema. E de certa forma foi assim que me senti há dois anos, quando parei para refletir na minha vida daquele momento.

Pretendo fazer fotografia comercial até maio de 2026, quando completarei 10 anos de profissão. Se vou fazer trabalhos de fotografia depois disso? Sim, mas muito poucos e esporádicos. Se vou parar de fotografar? Não, nunca. Não é disto que este texto trata. Pelo contrário, eu vou voltar a ter disponibilidade para pôr em prática a realização de alguns projetos fotográficos pessoais, adiados por muitos anos. 

Para ter esse «espaço» mental e criativo disponível, um espaço bem amplo e leve, formei-me numa nova profissão e já estou credenciado e trabalhando nessa nova área. Um trabalho formal que só exige a minha atenção dentro de horários específicos e que encerra-se mesmo ao fim, ao ir para casa.

Ainda preciso sarar as feridas financeiras deixadas por uma «sociedade» que terminou antes de 2020 e outras dessas feridas geradas pela pandemia, mas creio que em um ano eu consiga resolver tudo para que eu possa finalmente obter aquela paz da qual já nem me lembro bem. Vamos ver. 

Ser empresário ou empreendedor é trabalhar 24 horas por dia. Você sonha com trabalho, acorda pensando no trabalho, almoça pensando no trabalho e por aí à fora. Não quero mais isto, de forma alguma! Quero deixar o trabalho no trabalho, no fim do expediente; quero ter folgas, férias… Só assim conseguirei ter tempo para a criatividade. Na verdade, já passei a ter esse tempo. E é uma alegria. Aconselho.

Hoje tenho nas mãos uma balança: num dos pratos está a fotografia profissional, comercial — a fotografia para o cliente; a fotografia criativa, artística e documental/pessoal — a fotografia que faço para mim. Neste prato pesam ainda a literatura, a música, o misticismo.

O prato criativo pesa 3/4.

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Fotógrafo de Batizados